2009-06-11

foto&legenda # 439 (raça)

O que é que eu posso fazer?, tu és de portugal e tu és do benfica. São clubes grandes, sei, sim, senhora e sim, senhor, mas são poucos os dias da semana para que possamos ser felizes. Estão a perceber? O Jesualdo, por exemplo, não percebe.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2009-06-07

foto&legenda # hors-série (das continuações, xx)

Tenho que concentrar-me, arrumar a cabeça. O vício da morte persegue-me novamente. Estou para a indolência dos gatos, as manhãs e as tardes, capaz de demorar e esperar o corpo agora, de modo a que seja um momento eterno, que há-de acabar, mas que se sente infinito, para além do tempo estrito, as horas, as dobras, a sequência longa pela qual me faço presente e entrego a mim. _______________ Pensava que estava preparada para tudo, não estava. Atrelada a um universo de silêncios que crescia à medida que eu perdia a recuperação e a repetia em vão, tornei-me principiante. I’m an absolute beginner.* O que já não tenho é a inocência do princípio. Afastei-me dos sinais. Deixei de mandar postais. _____ A ressaca é quase perfeita, entranha a tristeza no meu corpo, domina as minhas mãos. Como represália, faz-me cair inteira, embora não necessariamente íntegra. É demasiado vago ou nada o que amortece a minha queda. Comungo o chão. _______________ Tudo está bem quando alguém sente que está com o tempo que lhe pertence. Comigo é diferente. Excedo a oportunidade, a vantagem marginal de quem termina. Tenho o coração calafetado, a sístoles certas e equívocas. Segredo nenhum tenho para revelar. Pretendo apenas continuar. A solidão, talvez o que é mais preciso em mim, convoca-me para a continuação. Não cedo a acasos. É o que quero.
fotografia © Rikki Kasso
legenda © Eliz B.
__________
* verso da canção “Absolute beginners” (in Absolute Beginners, Virgin Records, 1986), de David Bowie.

2009-05-24

foto&legenda # hors-série (das continuações, xix)

Sou o corpo imprimido no lugar da perda dele. Já não falo da hipótese da abundância, dos tempos que confluem na oportunidade. Esqueci, quero esquecer, embora não esquecer absolutamente. Na verdade não quero esquecer, quero apenas não sentir-me obrigada à presença. Da liberdade? Solto-me, não nasci solta. __________ A contracção do nome. O silêncio desenhado subitamente. _____ Sinto o corpo a convocar-me para a dissidência, para a sobra do combate. Já não se podem fazer substituições, foram esgotadas durante o tempo regulamentar da luta. A luta continua. Agora é o período dos descontos, a compensação. A luta continua. Habituo-me ao chão. Sou moça de bataclan e sozinha, não sou rapariga de bondage sindical, de palavras de ordem e marchas pelo serviço e pelas causas do serviço. As combinações fazem-me mal. _______ Atiro-me para o chão, para o contacto e para o contrato, para a identidade. Perdi a identificação, não o trabalho. No corpo desanimado, no que cai e em que vou, sou dona de casa, sou dona de mim, senhora das vozes pronunciadas de nada, vozes que ouço. O chão é a condição do meu regresso, talvez até porque regresso. Agora o chão é a minha habitação. O que quero? Quero apenas continuar, ser sedição. A solidão não me basta.
fotografia © Laurence Tarquin von Thomas
legenda © Eliz B.

2009-05-10

foto&legenda # hors-série (das continuações, xviii)

O poder que os quietos têm para vencer a memória faz-me sentir impotente. Sou crescentemente recordações e por elas, incapaz de esquecer. Isto habita-me com a mesma improbabilidade da comunicação e do amor. Não troco a proposição de Luhmann pelo uso do twitter. Não tenho urgências na puta da vida. É muito o que me espera para que, como sorte escrita, eu possa lembrar com vagar o que já esperei. Sou continuando a ser, isto sei. No entanto não sei se, sendo, sou continuação ou sou substituição. ____________________ Conheço um desvio que pode levar-me mais longe. Esse desvio és tu. Começo a crer que foste a desculpa melhor que tive para afastar-me de ti e de mim, sem regressar. Às vezes ainda me sinto perdida, ainda faço gestos que não têm destinatário. Sou capaz de perder-me mesmo diante do espelho, consumida na e pela evidência do reflexo de que sou simultaneamente motivo e testemunha. Acrescento-me ainda com a soberania de que, desde o meu - não o nosso - afastamento, não prescindo. Às vezes ouço vozes, sabes? Sou a senhora delas, a habitação de que precisam.
fotografia* © Lars Venner
legenda © Eliz B.

* fotografia sugerida pelo Tiago Gonçalves e sacada daqui.

2009-04-26

foto&legenda # hors-série (das continuações, xvii)

Vozes demasiadas são trovoada. Levanto-me como se só eu pudesse acordar e fosse imperioso fazê-lo. _____ Coisa estranha, agora tenho na cabeça, sinto-os, aqueles efeitos de distorção grossa dos retratos de Lucian Freud. Bem, bem vistas as coisas, não há distorção, há representação. É isso, a representação, o que mais aprecio também no traço preto de Hugo Pratt, nas figuras de Corto Maltese. Parecem vivas, vivas como nós, embora sejam desenhos, desenhos em prancha, em páginas para passar e virar. Às vezes gosto de sonhar acordada, de envolver-me com as personagens de uma aventura do veneziano, de estar ao lado delas, de estar com elas. Qualquer pessoa deve poder viver dentro de uma banda desenhada. Pelo menos algum tempo, não tem de ser a vida inteira. Viver dentro de uma banda desenhada não é uma expressão minha. Repito-a apenas. Ouvi-a ou li-a por aí, não sei onde. Facto que está a inquietar-me. Tenho a obsessão do rigor. Que não é o mesmo que a obsessão da perfeição. O rigor remete para o processo, a perfeição remete para o resultado. Pode atingir-se a perfeição sem rigor, do mesmo modo que com rigor pode atingir-se a imperfeição. Mas, de um modo ou de outro, são maneiras de permitir a continuação, o afastamento, o ritmo. É por aí que vou.
fotografia* © Hedi Slimane
legenda © Eliz B.

* fotografia sugerida pelo Tiago Gonçalves e sacada daqui.

2009-04-25

foto&legenda # 434 (o fado do trinta e cinco)

Respirar o mesmo ar, prosseguir a provocação.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2009-04-12

foto&legenda # hors-série (das continuações, xv)

A loucura é outra coisa, não ter nexo. Não é isto o que me acontece muitas vezes, cada vez mais, em consequência do enredo da tua ausência. Porque exijo a sinceridade também para mim, vou ser sincera contigo. Ocasionalmente és o sopro que, com a distância, me quieta as mãos. Sopro, só isso, não és matéria, algo com densidade e presença. Funcionas assim, vago. Se detenho as minhas mãos, sobretudo a mão direita, no vício do tabaco é para que, comigo embargada pelo consolo da nicotina, os andaimes que escoram o vazio feito por ti no esgoto do meu peito não me magoem. Aspiro o mal incensado na mortalha como penitência. A loucura é outra coisa, repito. _______________ Histerese é o que sofro, mal que, com a sua demora, o tempo há-de curar. A minha distância a ti é um exercício livre. Sofro-a sem tormenta e sem paixão, como acontecimento. É semelhante à fuligem primaveril, aos primeiros dias de calor morno, interrompidos pela morte da tarde. Algo que acontece porque tem de acontecer. __________ Digo-te ainda que sinto-me suja e compreendo a dúvida do que sinto. Pela metamorfose da distância a ti, cresceram-me asas. Agora sou um insecto, talvez uma mariposa, sou um pássaro, sou ninguém. Por causa do sexo, não posso ser anjo. Não me incomoda. A impossibilidade disso combina com a minha vontade. Sabes?, não quero voar, quero continuar.
fotografia © Nicoline Patricia Malina
legenda © Eliz B.

2009-03-29

foto&legenda # hors-série (das continuações, xvi)

Apesar de toda a sinceridade que tento, agora tenho medo de dizer que ouço vozes. Se o dissesse, pensariam que sou ou estou doida, olhariam para mim como alguém que precisa de arranjo. Não preciso. A loucura é outra coisa. Sofro apenas uma espécie de iluminação nocturna a que já me habituei e à qual chamo inquietude. __________ Ouvir vozes pode ser entendido como efeito de uma perturbação, sei. Mas ouvir vozes não é pior do que escutar o eco da solidão. Para além disto, gosto de sentir a minha solidão povoada, agrada-me sentir o corpo a estremecer devido às vozes que ouço. Creio que, mais do que uma agitação, algo estranho, tal é um modo de me despertar, é uma prova de que estou viva. É verdade que, às vezes, ao mesmo tempo que ouço as vozes, sinto que está a chover dentro de casa. No entanto não saio de casa. Sair, mormente sair por estar a chover dentro de casa, seria tentar fugir de mim, desencarcerar-me da identidade em que estou conjugada, afastar-me do espaço a que, pela habitação, pertenço. Não renuncio ao que sou, não tenho necessidade de procurar-me em objectos diferentes, em reflexos ou nas sombras da rua. Não estou perdida ou dissoluta, ouço vozes, apenas isso. Pelo que, caso sinta precisão de procurar-me, sei que, na hipótese mais tardia, haverei de encontrar-me através do choque com as paredes da minha casa. É aí, dentro, que procurarei um modo de evitar a chuva que cai sobre mim. Porque não admito e não quero admitir que a chuva lave as vozes que ouço. A loucura é outra coisa, não ter nexo.
fotografia © Alice Lemarin
legenda © Eliz B.

2009-03-10

foto&legenda # 438 (mundos)

Tens duas hipóteses, que são parecidas com as definidas na espécie de dilema enunciado por Heisenberg. Ou encaras o mundo em directo (e ficas cingido ao espaço e ao tempo que são teus) ou lês as notícias no jornal (e ficas a saber das coisas de longe e com atraso).
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2009-03-08

foto&legenda # hors-série (das continuações, xiv)

Estou na demora dos dias, a demora eterna que podemos observar desde uma janela. Os sinais, mesmo os sinais pequenos, não chegam. Há algo no universo, uma força, uma função, uma vontade, não sei o quê, que me adia para tarde, que me pede mais horas, que me obriga a esperar, como se eu pudesse continuar à espera dos sinais que não chegam. Não, não posso. Sinto a pressa dos lavores, não a posso trair. Nunca quis ser como tu, nunca. Faço as coisas mais devagar. Às vezes demoro à janela, a espreitar a luz a desfiar-se em tempo, só isso. Porque é assim, pelos farrapos de tempo que espreito, quieta, que consigo afastar-me de ti, da tua circumpresença, e continuar mais certa, sozinha.
fotografia © Maarit Hohteri
legenda © Eliz B.

2009-02-25

foto&legenda # 437 (police on my back)

Há ladrões e há polícias na cidade muito muito grande. O que não constitui novidade, porque há ladrões e polícias em muitos lugares. Onde há uns tende a haver outros e vice-versa, numa espécie de atracção de contrários que é muito anterior ao tempo dos primeiros sheriffs do far west. Os carros dos polícias é que são novidade, a cor e a velocidade, como nos filmes, autenticamente como nos filmes, muito diferente do que estávamos habituados com os matchbox que nos cabem ainda na mão.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2009-02-11

foto&legenda # 436 (sensu communis)

São cinco sentidos. Escolhes um. Quantos sobram? Quatro e o inverso, chamado regresso. Pelo menos.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2009-02-08

foto&legenda # hors-série (das continuações, xiii)

Depois, para os que dizem o advérbio e o suportam, é suficiente mudar o tempo do verbo. A vida continua, a vida continuará.
fotografia © Steven Klein
legenda © Eliz B.

2009-02-01

foto&legenda # hors-série (das continuações, xi)

Habitando o chão, testemunho a distância, a minha escala. O tempo é o meu transporte. Não regresso. Vigio o compasso atlântico longe, não me aproximo. Ouço o boletim meteorológico, leio o jornal. Não espero novidades, não as procuro. A demora continua a acontecer e a acontecer-me. A continuação é o nome do futuro e o que me promete e concretiza.
fotografia © Virginia Gálvez
legenda © Eliz B.

2009-01-27

foto&legenda # 435 (diz-me qual é o teu rating)

O mundo é cada vez mais o mercado de futuros. Conhecer alguém é conhecer quanto valerá, quanto risco merece ou justifica por conta do que valerá. Enquanto presente, o presente tornou-se insustentável e insuportável, de tal modo que diluiu-se numa espécie de antecipação ou de saudade do futuro. A confiança é cada vez menos um valor fiduciário, informado e projectado, do que o simulacro disso mesmo e uma aposta, uma tentação. Existimos cada vez mais para o futuro, para sermos. Aceleramo-nos para não demorarmos a ser o que somos. Mas as notícias do que somos e conseguimos ser continuam a chegar-nos com atraso e, portanto, a fazer-nos perder. Perder sobretudo o futuro. Que é já o que somos.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2009-01-06

foto&legenda # 433 (o meu nome não é melman, nem gaspar nem baltazar nem belchior)

Isto é tudo muito bonito e tal. Os magos, provavelmente por serem magos, disseram que nada tinham a declarar, nem o ouro nem o incenso nem a mirra, deixaram a excursão e foram à vidinha deles, visitar não sei quem. Eu é que me tramei, porque, parece, os camelos não têm manchas castanhas. Isto, o que eu tenho, deve ser uma doença grave, dizem. Até querem pôr-me de quarentena e decretaram embargo ao uso de meios de transporte não autóctones e, portanto, não certificados. Agora não sei o que hei-de fazer. Não querem aceitar-me no presépio, a providenciar bafos cálidos à manjedoura. Aqui entre nós, ainda bem, tal recusa vem mesmo a calhar. Não me dá jeito ter que ajoelhar-me diante da palha e ficar ali a enfeitar o curral. Tenho propensão a dores no pescoço e nos ombros. Para além disto, o espaço é apertado, o boi marra e o burro escoiceia. Pertencem a outro sindicato.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2009-01-01

foto&legenda # 432 (new year’s day)

And so we’re told this is the golden age
And gold is the reason for the wars we wage
Though I want to be with you
Be with you night and day
Nothing changes
On new year’s day
*

Chegam as notícias. Não são informações sobre o amor ou sobre a amizade. Não está muito frio. As notícias más e piores vêm de lá, lugares longe. O que não é motivo para alívio ou tranquilidade. Porque o mundo começa aqui, na nossa ronda, no alcance e no que podem as nossas mãos. Ou, mais exacto, tudo continua aqui, através de nós.

fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria
__________
* versos da canção “New year’s day” (in War, Island Records, 1983), da banda U2.

2008-12-25

foto&legenda # 431 (da maternidade)

E agora que o menino nasceu, não há-de ser mais difícil explicar-lhe que tem duas mães do que explicar-lhe que nasceu de mãe virgem e foi concebido pela intervenção de um espectro que, porque nunca foi visto, ninguém sabe bem o que é, embora seja sabido o seu nome.
fotografia © Pedro Gonçalves
legenda © Sérgio Faria

2008-12-19

foto&legenda # 430 (director’s cut)

Antigamente era a produção artesanal, a manufactura. A vida demorava mais. Agora a vida é uma indústria, uma fábrica de teelnovelas. Várias todos os dias, todos os dias santíssimos, de manhã, à tarde e à noite. Muitas não vemos - são tantas, chiça - e outras são repetidas, reposições. O que fazemos? Depende do tempo e da disposição. Mas a maior parte das vezes ficamos a ver o que acontece e a imaginar o que poderia ou pode acontecer. O natal é muito isto também. Um costume com teelcomando. O presépio, as luzinhas, o pai natal pendurado numa parede exterior como um meliante mesmo a jeito para levar uma chumbada de uma espingarda de ar comprimido, o bacalhau com couves sobre a mesa, o bolo rei ou - se o gosto for outro - o bolo rainha, as filhoses, a família reunida, a lareira acesa, a missa do galo e a ânsia das crianças que esperam as doze badaladas. A histeria natalícia dos cachopos é uma constante das últimas gerações, pode dizer-se. Aquilo da peúga para receber os pacotes embrulhados com papel bonito, às cores, e com laçarote ou lacinho é que está meio fora de moda, não está? E os filmes antigos?, alguém se lembra dos filmes antigos? Na noite de natal a teelvisão devia passar mais filmes desses, dos anos quarenta e cinquenta e a preto e branco. Para não estarmos a ver sempre a mesma coisa, o filme habitual, vezes e vezes sem conta. Ou o caraças.
fotografia © Pedro Gonçalves
legenda © Sérgio Faria

2008-11-27

foto&legenda # 429 (corpreensão)

O que não compreendo e não consigo compreender é o motivo por que somos expulsos de um corpo equivalente ao qual desejamos pertencer mais tarde, como se o desejo posterior fosse simultaneamente a confirmação e a negação da expulsão que nos aconteceu antes, como se crescer fosse uma espécie de regresso que, de facto, é continuação e eternidade. Engano também.
fotografia © Pedro Gonçalves
legenda © Sérgio Faria

2008-11-04

foto&legenda # 428 (stabat puer, stabat frater)


Zero zero. É difícil explicar os prazeres pequenos, como caminhar pelas ruas deste lugar e comer frutos do fim do verão quando os outros estão dormentes. É difícil e desnecessário explicar-te isso. O que significa que forçar a explicação é equivalente à obrigação de preencher o modelo qualquer coisa, impresso da imprensa nacional casa da moeda, para o efeito devido. Devemos evitar a burocracia vital, o gesto engravatado que nos empurra para a conformidade. O padrão é um equívoco. Não é igualdade, não é fraternidade, não é comunhão. É uma simulação formal e, pela imposição da forma, política da comunidade.

Jesus, Jesus help me
I’m alone in this world
And a fucked up world it is too
Tell me, tell me the story
The one about eternity
And the way it’s all gonna be

Um. Interessam as curiosidades. Este universo, o nosso, está organizado assim, sobre pormenores. Por exemplo, é importante saber onde guardaste a tua infância, na cave? ou no sótão? A resposta importa por ela permitir conhecer o regime de acessos e de reservas que tiveste quando infante e porque disso decorrem consequências. Claro que tu podes recordar melhor aquela ocasião em que tentaste a moeda numa slot machine. Puxada a alavanca, ficaste a saber o que era o azar e a sorte. Mas, insisto, relevante é saber onde, em cima? ou em baixo?, está arquivado o teu passado. Anda, aproxima-te. Não é para enganar-te. Não sou quem procuras, não sou mais do que um rapaz. As noites estão cada vez mais frias. Se aqueço, o motivo é a febre. Isto está pior do que antes. Não tenhas ilusões. Ardem-me as mãos, sinto-as a arder, já te disse?

Jesus, I’m waiting here boss
I know you’re looking out for us
But maybe your hands aren’t free
Your father, he made the world in seven
He’s in charge of heaven
Will you put in a word in for me

Dois. Os ácidos, as bases, o catering, a delicadeza, as delícias, os dedos, nada mais para além do dê. A natureza em versão livre. Depois as bibliotecas a arderem, como nos filmes, o apocalipse. A bela e o senão, dispositivos para exercitar a verdade. Quem julgas que vence?, o animal?, a fome?, a barriga cheia?, o mal distribuído pelas aldeias?, o peixe que morre pela boca? Que seja sortilégio o que é sortilégio, que seja inquietação o que é inquietação. Não nascemos para ser cowboys, mas fingimos que somos assim. Esquece. Ontem matei um homem. Soube-me bem. Não deixei vestígios, fui furtivo. Matei o filho dele também. A mãe do rapaz chorou. Matei-a a seguir, porque um, dois, três. Agora nem pai nem filho nem santuário, embora digam que a mãe voa. Durmo tranquilo.

Jesus, were you just around the corner
Did you think to try and warn her
Or are you working on something new
If there’s an order in all of this disorder
Is it like a tape recorder
Can we rewind it just once more

Zero. As noites estão a começar a ficar frias. Sabes?, as noites guardam-nos como as mães nos guardam, para o fim. Talvez o nosso dever seja sobreviver, sobreviver-lhes. Não nos pariram para a vida normalmente, para sermos casta minipreço ou preçocerto, para o encantamento vídeo a cores. Do amor estranho, o doutor, já ouvimos falar. Até amamos a mesma bomba. Sinceramente, quero que se foda. Não tenho força para mais. Superfícies, arestas, ângulos, prazeres pequenos, sombras maiores. Sinceramente, que se foda. Já sabes como acabam as noites, não é? Uns despertam, outros adormecem. Ó comunidade filha da puta, tão filha da puta, que fazemos, a que pertencemos, que merecemos. Merecemos tanto quanto a morte. Cuspo no chão. Cuspo no meu corpo também. Não será diferente quando e se voltares. Já não sei quem és. Não estou a tentar ser perfeito. Ardem-me as mãos.

fotografia © Pedro Gonçalves
legenda © Sérgio Faria

a legenda é interceptada por versos da canção “Wake up dead man” (in Pop, Island Records, 1997), dos U2.

2008-10-09

foto&legenda # 427 (lugar e voltas)

Foste um lugar, um lugar apenas. O tempo correu sempre sobre ti, como ainda corre, às voltas, dos crepúsculos às auroras e destas a aqueles. Foste um lugar, um lugar apenas, no carrossel das horas. Nada mais poderei dizer sobre ti, excepto que estou a tentar esquecer-te. A minha diária é diferente da tua, incompleta. À minha diária faltam as horas que não consigo, as horas permanentes e rolantes que sempre deixaste correr sobre ti. Foste um lugar, um lugar apenas. Não levo saudades de ti, não quero levar.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2008-09-29

foto&legenda # 426 (godroom)

Que, nesta habitação, da certeza da luz levas também a sombra, para saberes que há coisas que se desvelam e outras que se velam. Que, se fores capaz de olhar como eu, hás-de ver que, carregados por ti, os cestos da vindima levam o que será o meu sangue. Sangue por sangue, é o que é. Que é o que é quase tudo.
fotografia © Tiago Gonçalves
legenda © Sérgio Faria

2008-09-05

foto&legenda # 425 (warum der liebe gott will, daß es arme leute gibt)

and born in the mirror where lifes just begun
and i’ve roamed from the reasons and roamed to the gun
*

Perante os pés descalços, é necessário o exercício da epiqueia para explicar o motivo por que deus não nos livra do mal da pobreza e tanto nos entrega a si, sem nos permitir emburguesar, conforme a vontade que é nossa.
fotografia © Tiago Gonçalves
legenda © Sérgio Faria

* versos da canção “Devil’s waitin’” (in Howl, RAC Records, 2005), da banda Black Rebel Motorcycle Club.

2008-09-01

foto&legenda # 423/424 (mímica, uma arte de)

O gesto de representação da coisa é mais uma questão de competência estética do que de educação. Ela sabe e faz bem, eles não. Não espanta. A aproximação à perfeição exige jeito que, como o mister Jesualdo Ferreira - uma espécie de Deolinda -, os de baixo não têm. E o seu erro não decorre apenas do modo como recolhem o anelar e o indicador. Como desdita antecipada, decorre também e sobretudo do grémio pelo qual torcem, o da galinha.
fotografias © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria