2012-07-10

foto&legenda # 490 (uma casa sem paredes)

- Sabes?, não é tipo batata a ti, batata a mim. It takes two to tango.
- Até ao tango isso foi em inglês técnico, não foi? A essa não precisei de equivalência.
- Também não querias ser engenheiro, pois não? A reputação via engenharia já teve dias melhores.
- Abrenúncio, abrenúncio, abrenúncio, três vezes. Eu cá sou pela metafísica antes de haver para aí quem padecesse da vontade de exílio parisiense. Provo já. Como ilustração da matéria e da obra que concretiza o espírito ecuménico, parafraseio, uma casa sem paredes. É uma paráfrase.
- Paráfrase, soa bonito. Como desvio colossal. Detenho-me apenas na intriga sugerida por uma dúvida que é capaz de ser engenheira. Pode chamar-se casa a uma casa sem paredes?
- Pode. Foi um escritor, ainda por cima socialista, que pensou nisso como símbolo do que é universal. É poesia. É mais ou menos o mesmo que dizer uma cabeça sem cérebro.
- Uma cabeça sem cérebro?
- Ajudo-te. Olha os zombies.
- Onde?
- Em lado nenhum. Era só um suponhamos.
- Suponhamos, então, senhor dr.
- Senhor dr., isso mesmo, sou eu.
- Pois és, somos ambos. Continuando.
- Se calhar também podia ter conseguido o diploma do curso de licenciatura em alvenaria. Local sem paredes, casa sem paredes, é tudo a mesma coisa, não é?
- Ainda estamos no suponhamos? Ou já saímos?
- O que é que achas?
- Acho que não sei lá muito bem.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2012-05-22

foto&legenda # 489 (no estádio municipal de oeiras)

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Fazem falta as pessoas tomadas pela alegria, as famílias inteiras que isso, por causa de um caneco como nome de pátria desgraçada, um caneco que se desmonta e fica nas mãos. Um parafuso não é motivo para a intermitência da alegria. Porque para tristeza já basta quando quem agora alegre tomar consciência de que a supertaça já foi, no sentido em que, a vontade de deus ou do filho dele não é chamada para estas contas, a alegria dessa há-de ser de outros. Embora esteja grato desde já, não agradeço ao peregrino, agradeço ao meu presidente, o único que reconheço meu e presidente, o senhor Jorge Nuno, brioso mais do que a briosa, do que qualquer outro presidente, que não tenho e não quero ter. Fazem falta as pessoas tomadas pela alegria.

fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2012-05-11

foto&legenda # 488 (ascent)

Já cansa esta quaresma que não acaba e que continua a levar homens com quem sabíamos ser alegres.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2012-04-06

foto&legenda # 487 (a quaresma acaba sempre um dia)

Começaram a falar sobre pesca, tópico evangélico, o anzol, a qualidade do isco, com derivação para as sextas-feiras e a dieta. Mastiguei devagar, as palavras e a carne, para esconder o tédio, talvez mais do que isso, o desprezo pela conversa. Às vezes sem falarmos temos mais força, sinto isso. Acabei de beber o vinho. Imaginei a hipótese de três leopardos brancos sentados sob um cedro, como no poema de Eliot. Depois levantei-me e afastei-me dali, como se me despisse da canção que fazia o fundo. Subitamente um uivo. Onde? Quando? Porquê? Julgo que não podemos continuar a amar-nos assim, com tanta paixão, com tanto governo. Apetece-me fumar enquanto espero. Os dias continuam a ser de caça. Este é o território onde podemos crescer e conhecer a fome. Aponto. Um estrondo seco, outro, tantos quantos os necessários, não mais do que dois, um par. Ninguém nos separa. A arma tem alma lisa, confesso-me a ela, ela prolonga-me. Alguém há-de acreditar em nós. Mostro tudo, mas vê-se apenas parte. A diferença que faz ou pode fazer o que se vê não me perturba. Estou do outro lado, é daí que proponho o destino. Não acredito em ressurreições, creio apenas em tiros falhados.

fotografia © Cynthia MacAdams
legenda © Sérgio Faria

2011-11-25

foto&legenda # 486 (geral de geralmente)

Vês-me assim (de braços abertos, quase asas) e pensas que estou a imitar o crucificado ou a oferecer o peito às balas (elas que venham, estou preparada), como no quadro de Goya ou na fotografia de Capa. O gesto que vês não é gesto, é acto (um acto), momento de um movimento. Estou esticada e a dançar com a liberdade que quero, a crescer na rua, à mostra, porque não tenho vergonha de ser quem quero ser, ainda mais solta. Talvez devesse emigrar para experimentar com autenticidade a sensação de crescer, de ser e ter a possibilidade e a oportunidade de ser, sem ser apenas a personagem de uma legenda triste, sobre esta calçada, a pedra para os meus pés. A sensação de livrar-me do aperto paroquial de viver aqui, cingida neste estabelecimento que nunca encerra para balanço e onde (anunciaram) vão matar quase uma mão cheia de feriados porque, parece, os feriados são maus, provocam a acédia e a procrastinação. Como é óbvio, julga-os assim apenas quem tem vida boa e larga e, por isso, gere a demora conforme lhe apetece ou quase, sem ter necessidade de, por exemplo, atender ao horário dos transportes públicos. Automóvel de marca alemã por conta e chauffeur à ordem permitem ver o mundo de modo muito diferente. A propósito, dá cá mais meia hora tua para a jorna, a bem da nação, a puta da nação (über alles). A alternativa é seres vítima de confisco, mas não julgues que te dão a optar. Que merda. Sei que não queres saber, de facto não sei se queres ou não queres saber, no entanto digo-te à mesma, a liberdade paga-se com desassossego. Sentes a inquietude?, a inquietude não faz greve, balança. Eu danço porque quero dançar, sinto-me bem a dançar, como se me estivesse a libertar, às vezes também de mim, dos meus sapatos vermelhos. Eu sei que não são sapatos. A greve também não foi geral (cuidado com as generalizações), isso é a caixa de depósitos. Sei do que falo, já vi o cavalo a galopar numa colher à porta de uma agência dela, era noite, estava frio, desde então tenho respeito, muito respeito, pela expressão acentuado arrefecimento nocturno. Sobre o coração, olha a pieguice de chamar coração ao sifão cardíaco, continuo a dançar. Dança dura, que exige e convoca o corpo para prova de contacto. Tenho o hábito (mais exacto, a mania) de não atender a súplicas ou a ressacas. Quando posso antecipo-me, inclusive na desistência. Creio na dor de conquistar o que se é e pode ser, hoje ou amanhã, e perder, às vezes perder. Danço que danço e não pretendo renunciar a escolher com quem, unida a quem. Se quiser, let’s dance, sozinha.

fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2011-10-17

foto&legenda # 485 (il y a beau temps qu’en ce lieu d’aisance)

É perigoso quando se começa a perguntar para onde vai a luz depois de apagada, porque as interrogações sobre o destino implicam orientações diferentes. Nos termos da máquina e da maquinação vigentes, o problema é mais do que a raiva trazida à rua e televisionada, é a alienação a deixar de funcionar como funcionava. O futuro já não é o que era, no entanto era sob a promessa lisérgica do futuro anterior, a esperança de redenção e felicidade amanhã, que havia a disposição a amaciar os gestos e a voz, esperar mansa e caladamente. Agora, cada vez mais a hora da nossa morte, perante o encerramento do horizonte e a liquidação da ilusão que o sustentava, esta é a sentença que se sente nos pulmões ao mesmo tempo que crescem as necessidade e vontade de gritar, l’air est devenu irrespirable.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria
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A frase Il y a beau temps qu’en ce lieu d’aisance, l’air est devenu irrespirable faz parte de um texto de Raoul Vaneigem, “Banalités de base (première partie)”, publicado originalmente no número 7 da revista Internationale Situationniste, de abril de 1962. Em 1998, traduzida, foi utilizada como título de um álbum da banda Mão Morta.

2011-05-16

foto&legenda # 484 (triunviratum mais uma)

O lugar do costume, a carga do costume. Qualquer triunviratum pesa e deixa memorandum. O triunviratum mais a senhora de extracção da cova de iria, por cima, como cereja de calda sobre chantilly, pior. Não há pai sem mãe e não há filho que não seja filho da mãe também. Pode não parecer, mas a tara humana não dá para aguentar tudo. À senhora, a nossa, fazia-lhe bem ir athe biggest loser. E com este calorzinho de ananazes, propício ao vislumbre de milagres atmosféricos - ele há-os -, uma pista de gelo é que vinha mesmo a matar. As pessoas a fazerem de pedras de curling e, zzzzzzzz, deslizando, promessa paga sem abrasar tanto os joelhinhos. Fica o alvitre à consideração do pelouro das touradas.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2011-04-25

foto&legenda # 480 (ou tenho de os encarcerar)

E depois do adeus não olhar para trás. Manter a regra da frequência modulada, adaptar o plano. Se não se chamarem Maria Lucília ou forem de Jesus, os monstros são nossos amigos.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2011-04-24

foto&legenda # 483 (...)

Do mesmo modo que há frutos que caem maduros mais cedo do que outros, também há quem, à direita ou à esquerda, demore a posição e a defenda, recuperando a virtude que é possível imediatamente antes do fim. O problema é que o momento imediatamente antes do fim poucas vezes constitui uma oportunidade para o triunfo. Foi dessa quase fatalidade que foram extraídas as narrativas e as orações que alvitravam a hipótese de o fim não ser terminal. Do alvitre à instituição foi processo rápido. Nenhuma surpresa. O retorno das estações já acontecia antes do império romano. E, sem metafísica ou metástases disso, continua a acontecer. Só não é da natureza o facto de os marcadores religiosos repetirem-se com regularidade e consigo repetirem a pequenez e o simulacro que os originou.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2011-04-15

foto&legenda # 481 (grand central station, mãe)

Um bilhete daqui para o destino, o mundo abre-se a partir de lá, talvez até seja onde começa e, incluindo o caminho até aqui, o caminho a percorrer talvez mais não seja do que uma enxovia metafísica, uma espécie de pressuposto imperativo do início que, na sequência do processo, inscreve primeiro o fim, depois o princípio. À partida a pergunta que podemos fazer é sempre a mesma, quanto custa a franquia do futuro? A saída não é directa para lá.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2011-03-14

foto&legenda # 482 (o que falar alto quer dizer?)

Que combatemos, pá, que arriscamos a derrota outra vez, a conta de carne, sangue e voz, que rimos por nos levarmos a sério e para que outros também, que damos o argumento para fora para que nos ouçam e, para o caso que for, o arrebatam ou o rebatam, que saibam que a esperança também começou a falir desde que os recibos da cor dela deixaram de significar autenticamente liberal ou independente, trabalho ou amanho que não valem por catorze meses como trabalhos ou amanhos iguais e outros valem e que o ine amalgama como valendo na estatística que lhe dá nome, pá, que focamos a liberdade e sentimos - de sentir na pele e no osso, não de admitir ou julgar de modo metafísico - que precariedade não rima com liberdade, que sabemos que a insolvência não é a solução, para ninguém é, pá, que ainda assim estamos aqui, a tentar a comunidade, a continuar a propor o futuro, as notícias, o contágio, o cuidado, porque entramos na equação das possibilidades e da diferença que, porque é realidade, a realidade tem, sem iludir que ela é o que é e o que pode ser através dos gestos que no mesmo lance fazem o que é particular e o que é comum e que o mistério que somos em partilha voluntária e involuntária é justamente este, pá, presente e desassossego, estabelecimento e contingência, a reserva e a rua, onde estamos agora, porque para ela nos convocámos antes de regressarmos a casa e porque a vida, a nossa também, é o que manifestamos e fazemos manifesto nosso e de quem mais a ele quiser aderir, já ou amanhã, na medida em que, isto queremos e cremos, nem sempre amanhã é tarde de mais.
fotografias © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2011-03-01

foto&legenda # 479 (as rodas que nos soltam)

Estamos num lugar e deslizamos sobre ele. Adiante espera o acidente ou a morte, não sabemos o quê. Passamos no modo juvenil, como quem simultaneamente admite e esquece o risco. O mundo é nosso sem ser. Mais do que incréus, somos descrentes, oscilamos e partilhamos experiências, apostamos o corpo nelas. Passamos sobre rodas, em aceleração, não somos estátuas. São os caminhos que tombam, se caímos. Não ouvimos rumores do chão, não recebemos mensagens de lá, passamos. A paisagem é o que permanece, sobre o que deslizamos, e a ela pertencemos quando deslizamos, antes e depois.
fotografias © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2011-01-31

foto&legenda # 477/478 (panóptico)


Às vezes parecem ou acreditamos que sejam máquinas, aquelas máquinas. A pose grave que adoptam e com que se apresentam - e representam - reforça tais parecença ou credo. Passam, passa a companhia também, numa mecânica em que não é possível saber quem acompanha quem. Fazem discursos sérios, em escalas sérias. Não são como nós. Mas também não os imaginamos de espécie diferente, quase mas não com o mesmo genoma, tipo orangotango ou Lucy coelheira. Tendemos a acreditar na possibilidade humana, no que podemos por nós ou através deles, que é outro modo de sermos. Quase sempre é menos o que podemos do que o que cremos poder por nós ou através deles. É difícil prescindir deste eles, dificuldade que não promana da gramática. Conhecemo-nos o suficiente para sabermos que há uma diferença. O plural e os plurais suscitam o engano. Não somos capazes de passar para o outro lado do espelho. O que vemos?, vemos os dois sorrisos do rei, como dois são os corpos dele, segundo Kantorowicz. O que vemos mais?, vemos que nos estão a ver. Talvez a ver mal, o que - seja na hipótese, seja no facto - é problema mais nosso do que deles.

fotografias © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2011-01-13

foto&legenda # 473 (às vezes)

Estávamos à mesa, a comer torradas, a beber chá e a discutir o mal que há para aí, desde o banal até aos rissóis de leitão fritos mal. Por circunstância e oportunidade, a crise dominou a nossa discussão. Não estávamos empenhados em encontrar culpados, os culpados, caçar bruxas. Há muito tempo que não esperamos a salvação, contentamo-nos em salvarmo-nos dia a dia, face a face, combatendo a realidade, derrotando-a e continuando. Se ficamos para trás?, ficamos, é o sinal de que às vezes vencemos, às vezes conseguimos isso. Somos reais, demasiado reais.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2010-11-19

foto&legenda # 475 (aparição)

Está frio. Parece que os americanos vêm aí.

fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2010-11-18

foto&legenda # 474 (quatro por cinco)

De quatro não estão mais uns do que outros. Há apenas alguns que não querem saber e sentem-se mais de pé. Mais do que por ilusão, por necessidade. Que é para sentirem a anestesia que acompanha a queda. Já estão a cair, continuam, falta apenas a prova de contacto para dispensar a euforia e soltar a sensação da elevação perdida. Então perceber-se-á melhor a precipitação. Foi para o chão, os ossos assinalarão o impacto. Fora de jogo?, não há. A vida não é uma fábula em que há disso ou relvado para amortecer o choque. Pode fingir-se, cantar-se por cinco quinas, permitir o contentamento por conta de um quatro indefinido como se fosse um póquer de ases, havendo ainda um ás na manga, de reserva, que não foi necessário usar. Quatro, está bem. É o estilo que combina a quarta classe com a quinta dimensão, não dói. O royal flush vem já a seguir. É a esperança de quem não sabe interpretar a mecânica da combinação da taxa de juro com o spread. Fodidos, ó ié, mas por cima. Excepto das condições e das circunstâncias que chegaram há muito tempo, que não esperaram pelo prémio prometido. Mas quatro, não esquecer, quatro. Um sinal. À cautela, amanhã marcar também o número e a estrela no boletim, acrescentar uma aposta, se for necessário. Se deus quiser.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2010-11-05

foto&legenda # 472 (transumância, a volta)

Apesar de tudo é a portugal que voltamos, para ouvirmos as magistraturas da pátria e pastarmos nas pedras. Estamos no caminho bom, só falta começarmos a rir da morte para nos levarem a sério. Somos flâneurs, alguém esqueceu o cão lá atrás. Habitualmente não fazemos fila junto ao balcão, passamos em regime passing by, não tiramos senha. Uma de nós tem a mania que é do benfica ou da vanguarda, não sabemos do quê ao certo, só conhecemos o sinal. Voltamos para irmos brincar para a praia. Talvez um dia consigamos ver os tubarões sem termos que molhar as patas ou a lã. Os tubarões existem, não é?

fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2010-11-04

foto&legenda # 471 (transumância, a ida)

Conduzir rebanhos para e desde os pastos é manobra que remonta a tempo anterior ao das cidades. Depois as cidades vieram e foram colocadas entre os rebanhos e os pastos. As mulheres e os homens vieram habitar as pedras trazidas para fazer as cidades, trouxeram os deuses, as ilusões e os fantasmas consigo, deram-lhes arrumações novas. Foram escritos poemas, salmos e manifestos, escritas canções. As cidades tornaram-se locais de passagem, lugares de sonho. Não é por acaso que os rebanhos continuam a passar, a ser levados para os pastos. Mas já não há éclogas ou idílios, há só atrasos.

fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2010-10-01

foto&legenda # 470 (ora ponha aqui o seu pezinho)

Sei que dizes bom dia à tristeza em inglês técnico de animal feroz - não dizes bonjour, pá, porque é pouco elegante e não condiz com a tua gravata cor de salmão, cherne era o outro -, sobre ti não sei muito mais e, sinceramente, não quero saber. Distância, o que quero é distância. Não sou barítono, não estou para tangos ou para tangas. Bem vistas as coisas, a trezentos e sessenta graus como o concerto dos U2 - é já sábado e o preço do bilhete inclui iva à taxa antiga -, eu talvez devesse abalar para fora, ir a salto. Seria bom para ti - menos um -, seria bom para mim - menos dois. Explico porquê. Eu digo eu amo você e tu não respondes bou contar até três. É isso que me faz sofrer, as tuas sístoles e as percentagens que se precipitam da prensa cardíaca que tens no peito sem o um dois três prévio, da prevenção e da protecção civil. Dizes que é assim, em ritmo e com taxa de urgência, por causa da fazenda. Não sei. Isso quase já não se usa, é como os suspensórios e o laço em forma lepidóptera ao pescoço. E que é assim também por causa dos mercados. Também não sei. Aqui as quintas-feiras já não são o que foram, igual só a qualidade da contrafacção. Olha a poça, pá.

fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2010-09-27

foto&legenda # 469 (à grande vitesse)

A solução para o mundo continua a ser a do século xix, dizem, não a do espectro que paira sobre a senhora chamada Europa - que foi levada por um boi -, a da ferrovia. Via única e sem obstáculos prováveis. À, vrum, grande vitesse. Destino?, fora, sentido oposto ao do atlântico, para as cidades muito grandes onde se fala estrangeiro. Apesar das autoestradas, aqui estamos ainda na idade a pedal. Estamos a pedalar contra o atraso, precisamos de pedalar, a demora é crescente e já larga. O melhor talvez seja tirar um bilhete de comboio. O mundo muda em surtos temporais cada vez menores, uma quinzena, uma semana, não tardará que aconteça a ritmo diário ou à velocidade de uma viagem de intercidades. Exemplo. Entra-se em caxarias, sai-se em santa apolónia ou vice-versa e, tcharan, o mundo transforma-se outra vez dentro do mesmo fuso horário. O problema é que, seja em sentido descendente - na ida -, seja em sentido ascendente - na volta -, não há muitos horários para escolher. Na linha do tua é pior, só de camioneta. Mas o que interessa isto?, não é? O que interessa é o futuro. Não interessa se andamos a trabalhar para um mundo que nos renegará, com epistemologia acelerada e paisagem dromológica. A experiência que há-de vir é a da dissolução, o mundo haverá de chegar ao limite de não ser mais do que dissolução, sempre e só a acabar, em ruínas e vias de extinção permanentemente. Viveremos com a mesma excitação de agora mas encostados à excitação das coisas, numa sobreexcitação. A revolução que perdeu o prazo de validade que nunca teve acrescentar-se-á indefinidamente na promessa, como já sucede. Acontecerá a arrumação contra capitalista. A américa deixará de ser a américa e no entanto continuará a haver americanos. A culpa tem que ter alguma morada, este é um imperativo analógico inultrapassável, mesmo na era da vertigem. Entendes?, pois entendes. Neste momento não temos tempo para procurar volumes no céu e descobrir o horizonte. Será o que será. Até os pedais nos falham. Agora não caminhamos, corremos. Com o capacete não dá muito jeito mas são as regras, para evitar contusões na cabeça, não queremos problemas com a inspecção aqui ou no estaleiro. Segurança e higiene no trabalho. Sabes como é, de algum lado há-de cair o futuro e em algum lado há-de despejar-se a dívida nacional e o défice público. Portanto previdência, como a caixa para onde, por ano, todos os meses e mais dois vão onze por cento do nosso suor. Só no desemprego é que não. A minha proposta?, é melhor do que a do engenheiro, verter bourbon para dentro das nossas sombras para que, do mesmo modo que as estacas suportam as obras públicas, as scuts e as derrapagens de custo delas, possamos assentar em algo que possa simultaneamente aquecer-nos e sustentar-nos. Vem aí o frio. Sejamos ousados. A produtividade, a competitividade, a ilusão, algo assim, nada que implique despesa ou aumento do endividamento. Ou, mais arriscado e provavelmente ainda económico, façamos como o filho do carpinteiro ensinou, oremos. E, devagar, um orçamento do estado para cada ano, mesmo que atrasado.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2010-09-23

foto&legenda # 468 (que a freguesa deu ao rol)

Se estamos a falar de autenticidade, e estamos, convém esquecer a canção que é antiga e não é para aqui chamada. Esquece também a minha doença, é minha e já só tu acreditas, desculpa, é mesmo assim. Supõe que está tudo parado, que gestos de ofício, alguns bruscos, foram estancados subitamente mas o sangue ainda está neles, numa pulsação quase travada, de animal hibernado. Imagina que à volta a vida continua, apenas a cor de ferrugem consuma a quietude. Eu fico encostada à vida de ontem, ao calor que define o corpo. Não consegues imaginar, insistes nas rezas para expiar o mal, vencer o bicho, crês que isso irá fazer-me presente eternamente. És fraco, depois da tua mãe fui eu quem lavou sempre as tuas camisas. Quando cheiras a lavado, é a mim, pelo meu trabalho, à água esfregada e ao sabão que deves o cheiro. Tudo detido, sem centro, consegues imaginar?, tenta. Um dia não estarei cá, vivê-lo-ás sozinho e não serás como Pigmalião, não verás vultos em que possas admitir vida ou sobre os quais possas projectar paixão. Um cadáver não é uma estátua. Se chorares, chorarás um fantasma que já não está e não quer estar aqui. Espero sinceramente que continues a ter camisas lavadas, passadas a ferro. Sinto que estou a enferrujar, a secar como barro, não sei que outro nome dar à morte ou à imitação dela antes dela. Talvez vida. Não sei, não sei.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2010-08-21

foto&legenda # 463 (querer)

Quero crer que não queremos o mesmo. Não quero a urgência, não quero a repetição, também não quero a elevação e não quero a elevação não porque tenha vertigens, porque eu não as tenho. A mim bastam as intermitências da felicidade, aqueles momentos dos pés. A alegria descobre-se nos pés, é o que entendo. Como é óbvio, não dura para sempre, nada é eterno. Até a eternidade há-de acabar um dia.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2010-08-05

foto&legenda # 467 (ilusio)

Estás no jogo, queres ganhar, não queres perder, estás disposto a tudo para não perder, perder é a confirmação e um atestado da tua fraqueza, isso não te satisfaz, como é que pode satisfazer alguém?, não é?, por causa disso, para não perderes, estás disposto a tudo excepto a abandonar ou denunciar o jogo, porque mesmo derrotado continuas a ser alguém através do jogo, das regras a que obedeces, das posições que podes ter, da esperança que o jogo te propõe, mesmo que esperança desesperada, porque sem jogo ou fora do jogo seria pior, seguramente muito pior, embora não sejas capaz de conceber, imaginar ou admitir o que é isso, sem jogo ou fora de jogo, talvez outro jogo, porque o jogo encerra-te nele e tu encerras-te em ti, no medo da liberdade, no temor da ousadia de saíres do jogo, sem desistires, o modo como os outros te chamam para jogares. Já estás vencido e não percebes, é tudo política, ditadura, não dói.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2010-07-13

foto&legenda # 464 (carregar)

A gravidade assenta, o chão suporta, uma mão ampara, a fé carrega, a física da trancendência não é apenas a vontade de arrojo. A fé não move montanhas - as montanhas são coisa pouco móvel -, a fé move através da força que consegue projectar, projectar também sobre o que a suporta, porém não move montanhas. E a acompanhar a mobilidade animal suscitada pela fé, a peregrinação, há a mecânica do terço, uma mecânica simples, cinco mistérios, uma avé maria por cada conta, um pai nosso antes de cada série de dez, uma jaculatória - a glória - após a dezena e uma salvé rainha, maria é sua majestade, para rematar a ronda dos mistérios. Tudo isto cabe numa mão e, contas bem feitas, acrescenta na tara, pesa mais.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2010-07-02

foto&legenda # 466 (morrer na praia)

Este é o lugar da minha morte, tu sabes, eu sei. Não hão-de escrever poemas sobre isto, o que me parece a solução melhor. Um morto não tem vontade, faz como entenderes. Ou não faças, eu prefiro que não faças, que não faças agora e não faças depois. Peço-te apenas que cuides dos meus gatos, ganhei-lhes afeição, sabes?, coisas da natureza, da crueza da vida. Quanto ao resto. Para ser sincero, julgo que não há resto ou, se há, não quero saber. Basta-me estar aqui. Não, não tenho intenção de despedir-me ou de ordenar a lavragem de testamento, não tenho qualquer interesse em contribuir para a resolução dos conflitos entre vós. Fazê-lo para quê?, sois vós que continuareis vivos, o futuro é encargo vosso. Não te agrada, não é?, compreendo. Podes sempre ir fazer queixa ao sindicato. Dá-me cá um abalo ao pífaro.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria