2010-04-13

foto&legenda # 462 (l’anatra all’arancia)

Uma personagem secundária, chefinho, chefinho, tão novinho, ainda com o cabelinho todo e tudo, e agora?, como é que é?, como é que vai ser? O protagonista, ora, vai ser como nunca foi antes. Esta é de fazer suar as estopinhas e eu sei muito bem o que isso é porque sou barítono. Portanto, meu bom amigo e amigo da paz, do pão, do povo e da liberdade, é como tem de e que ser. Há-de e há que começar pelos fundamentos, pelo princípio. E o princípio é o que é necessário. E perguntas tu, meu bom amigo, com ar de babalu, porquê rever a constituição?, se. Deixa-te de ses porque os ses só servem para complicar e porque para pensar estou cá eu e o coro de especialistas e poetas que me acompanha. Deve começar-se por rever a constituição porque, estás a ver?, rever a constituição é a forma de fingir que se está empenhado em mudar muito sem, de facto, fazer muito para mudar o que quer que seja. Para além disto, importa notar, (está calor aqui, um calor de ananazes, é um indício meteorológico do que já está a mudar), tal como preconizo, neste princípio há uma economia de procedimentos e uma prática de entretenimento. Aliás a paródia é o que vem a seguir à paz, ao pão, ao povo e à liberdade. Mais ao fundo, fora do alcance da melena do protagonista, uma mulher gritava, ó Geppetto, pá, tu faz-me um filho assim, bom actor e com cara de pau. Parecia ópera mas não era. Não havia pato no assador. E, mais grave, as laranjas não eram só do pafarrão. A história repete-se ou há-de repetir-se.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2010-04-02

foto&legenda # 461 (disse ela)

Na verdade, não há homens bons, não há homens melhores, disse ela, com a razão toda, até porque não há razão por meio ou por terço ou por quarto ou por outra fracção qualquer. Mas a questão não é a razão, tão pouco é a verdade, é a canção. Todas as canções são mentirosas, do bandido, daí a necessidade de as ensaiar, para o engano ser como nenhum homem é ou pode ser, melhor. O mesmo em relação às mulheres. E àquela coisa - exactamente, coisa - chamada comissão disciplinar da lpfp, éfepê de filhos da puta.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2010-03-23

foto&legenda # 460 (Tiger Woods não sabe nadar, iô)

Está on?, está a gravar?, então, com licença. Naquela história fomos todos diferentes, o mundo outra vez mas organizado de modo diverso, abaixo dos nenúfares, ainda assim tão perfeito quanto este, onde o mais estranho foi continuarem a ser necessárias as pernas para jogar golfe. Compreende-se que os tacos fossem flamingos e que as bolas fossem ouriços. Lá não havia a liga protectora dos animais, embora houvesse uma menina capaz de aumentar e diminuir de tamanho num instante e de falar com uma lagarta azul a fumar narguilé em cima de um cogumelo. Ouvi dizer que os cogumelos fazem bem à saúde. Mais ou menos, se os animais falam, como a Lúcia no céu com diamantes a ver uma senhora cintilante, como um sol, a dançar sobre uma azinheira. Esta é outra história e, como naquela, nela não se fala de bolotas. Mas podia. Consta que o Abóbora bebia muito. Talvez ele fosse dado a epifanias como a filha. A seco é que seria diferente, birdie, eagle, albatross, condor, consoante o número de tacadas abaixo do par.
fotografia © Elena Kalis
legenda © Sérgio Faria

2010-03-11

foto&legenda # 456 (a justiça pelos passos)

Isto não é uma história à beira-mar. Morreremos todos antes de chegar lá. Já ninguém espera que a justiça, qualquer que seja a justiça - portanto também a justiça divina -, já ninguém espera que a justiça seja proporcional. A vida é necessariamente um exagero, viver é um modo de exagerar. Todos os dias são a perfect day for bananafish. Passo sobre passo, passos largos, andar, andar, recuperar o poder dos passos perdidos. Nesta medida, que justiça poderia conter-nos?, que juízo poderia ser justo connosco?, se o juízo inicial é demasiado antes, se o juízo final é demasiado depois, se há sempre um passo mais a dar.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2010-03-01

foto&legenda # 459 (havia um pentagrama no altar)

Não, pá, não tens razão, não foi um, foram três. Um, dois, três, ora estica lá os dedinhos. À alemã começa-se a contar no polegar. E depois, como se o resultado do jogo não tivesse sido suficiente mau e evidente, naquele jeitinho dele, meio benfiquista meio Deolinda - as proporções podem não ser exactamente estas -, o mister Jesualdo veio dizer ainda somos campeões. Pois são. Mas o objectivo não é deixarem de ser, ficarem a ver o penta por um canudo, que era como já o andavam a ver há muito tempo. A missão não era levarem três secos de uma equipa orientada por uma tarântula de pinhal manso e permitir que uns tamboris dos arrabaldes da alameda das linhas de torres e que vão a massagens a Alcochete fizessem fosquetas junto à linha lateral como os símios expostos no jardim zoológico. Combate é combate, é sempre a subir. Aos outros, os tarantantans listrados em latitude, é que devia ter sido concedida a sorte da derrota. Mas, com um híbrido meio benfiquista meio Deolinda com o cérebro desenhado para conceber tácticas de curling usando como base os considerandos de Schröndinger sobre um tareco qualquer, fazer o quê? Perdemos bem, também disse ele. Uma manada de Gauríns arrumada para dançar ballet pode dar para perder, porém perder assim nunca é bem e sobretudo não é bonito, menos ainda contra onze gnomos que andaram para aí não sei quantas semanas a espraiar futebol de pacote e a levar para contar. Outrora no hectare servia-se tango, não espetadinhas de frango.
fotografias © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2010-02-27

Nota de intendência. Há muitas fotografias no Paulo sobre o que aconteceu na Madeira na Tabu, revista que suplementa o semanário Sol (n.º 182, 26.fevereiro.2010). Folhear em particular as reportagens entre as páginas 22 e 25 e as páginas 26 e 39. E ver.

foto&legenda # 458 (jardim suspenso)

A natureza é o absoluto que nos antecede, absoluto pelo qual somos necessariamente, somos no equilíbrio entre o que somos e as provas de contacto do que somos. Portanto somos sem saída. Quando da natureza vem muito mais do que as mãos, o que elas fazem e os frutos, quando vem a força que desabita e desola o chão, contam-se os mortos e recorda-se uma dúvida que o tempo foi fazendo esquecida: porquê o mundo é feito de destroços? Continuamos a não saber a resposta. O que sabemos é que quanto mais força é investida contra a natureza maior é o impacto que ela é capaz de devolver-nos em formas e modos que nunca conseguimos domesticar. Somos fracos, não somos sempre fracos, mas somos fracos. A natureza fez-nos assim, com inclinação à fraqueza diante dela. À semelhança do que sucede no combate entre os deuses e os mortais, no combate travado entre a natureza e os mortais são os mortais que morrem. Se há sobreviventes, não é o fim. Reerguer é o verbo que acorda com o luto e através do qual as pessoas são capazes de continuar, é o acto após o estupor que sucede à tragédia. Vêm as máquinas, vêm as mulheres e os homens. Permanece o contrato entre a natureza e a humanidade, contrato em que a cláusula da morte não está escrita em letra miudinha. Vêm as mulheres e os homens porque a remoção dos destroços não é ofício dos deuses.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2010-02-19

foto&legenda # 457 (rexistência)

Somos breves e pequenos para o desespero que não assumimos. Confins, corpo a corpo, merecemos o que, por devolução nossa ou da natureza, nos acontece ditado como culpa e sentença. Não tapes os olhos, descobre-te. Estás a acontecer. O mundo já está nu.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2010-02-09

foto&legenda # 455 ((antichrist television blues))

Não sou original, repito com adulteração um credo de Nietzsche - Ich würde nur an einen Gott glauben, der zu tanzen verstünde -, não creio em deuses que não saibam dançar. Menos creio em deuses mortos que isso também, cadáveres não dançam. Este princípio remete-me ao corpo, ao posto onde a morte sopra como instinto. Antes das ficções, a sobrevivência, o combate, o jogo, os passos, a alegria, o erro. Talvez não seja verdade mas, meio mas, não mais do que essa porção adversativa, preciso de estar sozinho para encontrar-me. Quando saio estou com os outros, partilho a respiração com eles. É isso a dança, admitirmos a água como vinho, o vinho como sangue, o movimento que transforma o pão em mais pão e o pão em carne, para que a festa não cesse. Não preciso de histórias da carochinha para acreditar no corpo, no que com o corpo se faz e é possível fazer, incluindo a ligação. Preciso de simplicidade, de estabelecimentos que consiga ver, necessito da concretude dos dias que acontecem mais perto, dos desvios que posso através deles e das horas que têm. Sem assentar em doutrina, creio no corpo a autenticidade, no corpo a história, no corpo o reino, no corpo o rei, eu, tu ou outro, a falência da intenção metafísica. É assim, se danças, trazes a música à carne, numa operação em que o corpo vibra a ressurreição da condição própria. Preciso de estar sozinho para encontrar-me mas, agora a adversativa é inteira, concedo, descubro-me corpo a corpo, descubro-te também. A dança despe-nos. Ficamos sem deuses, ficamos sem teelvisão, matamos e prescindimos de o que é supérfluo. O corpo é suficiente, sede e ligação. E quem diz dança diz futebol.

fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2010-01-20

foto&legenda # 454 (esquina americana)

O Haiti é tão longe e falam francês lá, chorar o quê? Claro que a culpa é dos americanos, de quem haveria de ser? É sobretudo de Whitman, dele antes de qualquer outro, que morreu naquela aflição original de ser americano antes de os americanos serem quem são, que sofreu e soube louvar a culpa de ser assim desde o princípio. Mas, ainda o Haiti, eu não estou lá, não tenho amores ou contas de sangue ou simpatia lá, aquilo não é comigo, porquê fazer aquela tragédia comum?, vala de todos, inclusive minha. A mim basta-me a estranheza próxima, a esquina americana que foi inaugurada a semana passada na cidade que nunca saiu do estupor de ser vila, excepto na cobrança do parqueamento automóvel. Passei lá ontem ou anteontem, àquela esquina, e vi o corredor intrépido, como espectador diante de um ecrã, a olhar as voltas do tambor de uma máquina de secar roupa. Castigo divino, disse uma mulher que se aproximava da porta da lavandaria self-service, foi castigo divino. Coitada, ela não deve saber que os americanos existem. Admiti que ela tivesse os pés cansados, o calçado parecia desconfortável, e pensei na teoria da massagem aos pés contada em Pulp Fiction. Eu passei ali só para ir comprar o jornal e beber um café e, sem querer, tornei-me uma testemunha inoportuna. O número de mortos no Haiti contado em pés há-de ser mais aterrador, dobra a desgraça, faz julgar que os sobreviventes são menos. Andar, andar, shake dog shake. Larkin chamou à vida a quite unlosable game - escreveu-o num poema -, ainda que não à vida toda ou inteira. E eu, que tenho dificuldade em apontar o Haiti no mapa, sei que o mapa se chama planisfério mas não sei onde fica o Haiti, estou a conjecturar o que aquilo, aquilo das notícias, que vem nas notícias mas que é de lá, do Haiti, o que aquilo possa ter a ver comigo, com a mulher do deus punidor, com o Fabrício a olhar para a roupa a passar enrolada atrás do óculo de uma máquina de secar, com o senhor Manuel Cartuxo à porta da loja dele, com o senhor Joaquim sapateiro a trabalhar dentro da oficina no lado oposto à mercearia do senhor Manuel Cartuxo. Os pés, o que terão os pés dos haitianos a ver connosco? É verdade, na esquina americana, dentro da lavandaria, costuma estar um rapaz que fala com sotaque. Aposto que esteve em França e que aquilo, pôr um bocadinho da américa ali na praça, de onde se vê a igreja, o café central, tudo mais concreto do que o Haiti, é o negócio dele. Claro que a culpa é dos americanos, a mulher nada sabe sobre o assunto. Carregava um cesto com roupa, para lavar ou secar, não sei. O deus que castigou os haitianos não tem tempo para tratar da roupa da mulher. Agora nem as orações nem os voodus lhes valem. Embora não saiba da culpa dos americanos, a mulher é capaz de ter razão. Dificilmente as orações chegarão ao Haiti a tempo de salvar alguém. Andar, andar, é para isso que servem os pés. Porém o Haiti é tão lá longe e eu passei naquela esquina só para ir comprar o jornal e beber um café. Na capa do jornal vinha uma fotografia do Haiti.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2009-12-24

foto&legenda # 450 (anjos aí)

Temos que aproveitar e explorar as oportunidades de negócio. Onde é que encontramos anjos?, na américa, não é? Pois agora, a troco de um montante módico, qualquer pessoa pode ser anjo. Pode escolher o tipo de plumas - temos vários tipos, desde o mais convencional até ao mais exótico -, também pode escolher a envergadura das asas e a forma de recolhimento pode ser mais discreta ou mais petulante. Já não há motivo para quem quer que seja e que queira ser não seja anjo. Vontade e um montante módico é quanto basta. O resto é por nossa conta. Temos catálogo para consulta e, claro, o nosso produto tem certificado de garantia, contra defeito de fabrico ou de montagem, válido por vinte e quatro meses. Tendo em conta que os anjos têm uma esperança de vida equivalente à duração de um contrato de trabalho com termo certo, diz-nos a experiência que vinte e quatro meses de garantia chegam e sobram. Não, a inflacção não interessa. O desemprego também não. Fixe-se nesta expressão, preço módico. Preço módico. É de campanha de natal. Não, nós não fazemos saldos. Fazemos campanhas. A próxima só na páscoa. Nessa altura contamos ter a gama dos nossos produtos melhorada e alargada. Também teremos cepos. E cavilhas de níquel, tipo prego de solho. Para o efeito que é, é suficiente. Não, a manjedoura é um produto de época, só temos agora. Passada a quadra, deixamos de ter, só voltamos a ter no ano que vem. Sim, sim, é para o produto não se deteriorar. Fardos de palha?, isso temos durante o ano todo. Também temos em cápsula, temos, sim senhor. Sim, sim, tem razão. Não podemos ser todos anjos. As cápsulas?, há de vários sabores. É uma questão de paladar. Gostos não se discutem. Não podemos ser todos anjos, mas quase todos podemos ser. Temos um sistema de pagamento adequado a cada caso, em prestações suaves, caso seja necessário. Preço módico, prestações suaves, como as plumas. E ecológico.
fotografia © Pedro Figueiredo
legenda © Sérgio Faria

2009-12-16

foto&legenda # 449 (exit)

As tuas costas são um sinal. Vejo sete torres, sete sinos, e apenas uma saída. Eu fico, sou o atraso.
fotografia © Pedro Figueiredo
legenda © Sérgio Faria

2009-12-08

foto&legenda # 453 (københavn, etapa do apocalipse)

Num lugar dizem a esperança. É autenticamente a ilusão de que continua a haver princípios, de que a função reset está disponível para o mundo. Não está. A revolução é inevitavelmente para o mesmo. Somos filhos de Δαίδαλος, ainda não aprendemos a cair sem fim, apenas caímos, sem hipótese de recomeçar, continuamos a cair. A continuação assim é a série que corresponde ao desespero, é o processo que suscita e transporta a consciência de que a morte não resolve o mal sem cura de que padecemos como comunidade e cada um de nós padece também. A impossibilidade da morte como solução é uma doença mortal, é a condenação à falência. Falha a fé, falha a dialéctica, falha o retorno eterno, falham as modalidades de habitação do parque humano, do absoluto que o habita. Agora, que dura a cerca de meia hora de silêncio após a quebra do sétimo selo, resta o fim. Como não somos capazes de sair do tempo, ainda imaginamos moinhos, inventamos relógios gigantes com três ponteiros para combater o atraso. Mas o atraso é já demasiado. Nas fontes, nos rios e nos mares haverá absinto. Nos chãos haverá apenas areia, cinza ou sal. No ar haverá fumo negro e perfume de enxofre. Ninguém existirá para continuar a imaginar moinhos. Esquecidos todos os hinos, esquecidas todas as orações e todas as intenções, sobreviver-nos-á o ocaso.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2009-12-01

foto&legenda # 452 (zero a zero)

Isto é a sério. Se alguém é adepto de Rui Santos, essa espécie de prof. Marcelo da bola, que esqueça e siga, isto não é uma petição para refinados. O futebol é um jogo. Confrontam-se duas equipas, sob regras determinadas e simples. Os objectivos de cada equipa são claros, não sofrer golos na baliza a defender e marcar golos na baliza a atacar. No confronto entre as equipas, são objectivos mútuos e contrários. Da conjugação de tais objectivos podem resultar cenários distintos. No estádio actual de desenvolvimento do jogo, importa destacar três, no sentido em que os restantes são variantes de um deles. Um desses cenários – instituído como propósito maior do jogo – é a vitória de uma equipa (e a consequente derrota da outra), decorrente do facto de ter conseguido marcar mais golos (do que a outra). Outro cenário é o empate com golos, decorrente do facto de cada equipa ter marcado um número de golos igual ao que sofreu. Outro cenário ainda é o empate sem golos. Nos dois primeiros cenários compreende-se que haja atribuição e distribuição de pontos. No primeiro cenário são atribuídos três pontos à equipa vencedora e nenhum ponto à equipa derrotada. No segundo cenário é atribuído um ponto a cada equipa. No último dos cenários referidos não se compreende que haja atribuição de pontos. É certo que o empate sem golos é um empate, no sentido em que nenhuma das equipas se sobrepôs. Mas é menos do que isso e é muito diferente do empate com golos. O empate sem golos é um empate em que cada equipa não cumpre o mínimo, não demonstra capacidade de vencer, porque incapaz de marcar golos. Enquanto resultado, o empate sem golos corresponde à situação que há no momento exacto em que começa o jogo. Em tal circunstância as equipas equiparam-se na impotência, não na potência. É como se o jogo não tivesse acontecido. Ou seja, o empate sem golos é um empate a zeros, é o fim do jogo equiparado ao princípio. Quando assim é, deve valer nada, nenhum ponto para cada equipa. O futebol não é para mansos. Para esses há o curling e a tourada.

fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2009-11-27

foto&legenda # 451 (mad tea party)

Antes. Estava a pensar. Talvez. Podemos ir a um baile de cartas, eu levo o baralho. Comparecemos, bebemos chá, comemos pastéis de nata. Não haveremos de ser mais estranhos do que os outros. Depois. Também te. Ainda me custa dizer as palavras todas, sabes?, pareço doida. Quando as digo parece que fico com a língua dormente, como quando a queimo. Não, ainda não. Os lugares estavam todos ocupados. Ainda depois. Rainha de copas, rei de espadas, ela ou ele morreu. Não sei qual é o trunfo. Também não interessa. Os pastéis de nata estão quase a chegar. Julgo que foram convidados, não sei. É-me indiferente a condição em que vêm, não estou a pensar dançar com eles. Sei, sei que pareço doida, as palavras entorpecem na minha boca. Estão a aproximar-se, eles, estão a aproximar-se.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2009-11-18

foto&legenda # 448 (they die with their boots on)

Caminhos, eternamente o mesmo caminho, a ronda dos lugares, o transporte mais óbvio pelo qual vamos. Assentamos sobre ele desde o princípio. E aí, kemo sabe, a roda foi inventada apenas depois da invenção dos pés e dos cavalos, é reino só para calçados? ou podemos caminhar como quisermos?
fotografia © Pedro Figueiredo
legenda © Sérgio Faria

2009-11-07


Hoje e amanhã são os dias derradeiros da exposição Nha Gente Guiné Bissau. Por isso, reitere-se a sugestão e a exortação: entre as 10.00 e as 13.00 e as 15.00 e as 19.00, é aproveitar. Subir ao morro do castelo, ir à praça do pelourinho (39º 38' 33,95'' N, 8º 35' 27,10'' W) e apreciar uma série de fotografias do Pedro Gonçalves.

2009-10-30

foto&legenda # 446 (o fumador)


ao Rafael Frias

Isto dos alentos e dos desalentos é como a meteorologia, depende das condições atmosféricas, as pressões altas, as pressões baixas e as depressões. Não se pode dizer sempre acentuado arrefecimento nocturno, sim, minha senhora. Às vezes, mais cigarro, menos cigarro, as coisas são ao contrário. Vício, virtude, o fumador transfere a pressão para a aspiração do cigarro e o cigarro cede. Os cigarros cedem. Regra, levar um maço deles no bolso, não vá o diabo tecê-las. Tece-as muitas vezes. Convém estar preparado. E depois, não obstante a preparação e o treino, não há tempo para fumar. Um gajo vai, por iniciativa própria ou levado, e esquece-se de fumar. Um gajo esquece mesmo que fuma. Os pulmões estão cheios de outra matéria, apertos, assuntos graves. Há quem lhes chame emoção ou comoção. Há alívios e seguranças que os cigarros não permitem. O vê que alguém vê entre lágrimas não é de vitória, é de vassourada. O fumador leva os louros, leva os trabalhos também. Acentuado arrefecimento nocturno, sim, minha senhora, foi um episódio que acabou. Agora é hora de regressar à culpa.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2009-10-23

foto&legenda # 447 (cidade de deus)

De todos os lugares, a cidade de deus. Nunca a vi. Ouvi dizer que foi concebida e desenhada por um arquitecto fabuloso. Que tem bairros perfeitos, cortados em esquadria, ruas largas, passeios largos também, em calçada portuguesa, jardins para embelezar, rega gota-a-gota, candeeiros. Que é um lugar para todos. Um lugar para todos?, não sei. Um lugar para todos parece-me tanto improvável quanto indesejável. Os mortos são enterrados justamente para que o chão deles seja diferente do chão nosso. Mais do que uma questão de respeito, é uma questão de segregação, ou seja, de economia. Se todos somos muitos, um lugar para todos há-de ser um lugar inabitável. A cidade de deus?, repito, nunca a vi. Prefiro as cidades acesas, sem ordem ou prescrição, animais bravios, eléctricos, que os meus olhos também não vêem.
fotografia © Pedro Figueiredo
legenda © Sérgio Faria

2009-10-16

foto&legenda # 445 (o ascensor)

Dizemos muitas vezes a espera. Somos nómadas. Subimos e descemos, consoante a imposição e a vontade. Às vezes descemos quando queremos subir, outras vezes subimos quando queremos descer. Outras vezes ainda queremos apenas ficar, não subir ou descer, e subimos ou descemos. O contrário também sucede. E esperamos o transporte que nos leva e dá o sentido. São demasiados os patamares da vida e os acidentes de quem sobe e desce. Parece que apenas no momento derradeiro temos a capacidade do movimento duplo e contrário, descemos com o corpo enquanto a essência da alma ala às alturas. Há muita gente a ver fantasmas.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2009-10-10

Nha Gente Guiné Bissau


Hoje, na galeria municipal de Ourém, será inaugurada a exposição Nha Gente Guiné Bissau, constituída por fotografias do Pedro Gonçalves. Resumidamente, irá ser patente um conjunto de rostos de pessoas da Guiné Bissau, que a objectiva da máquina do Pedro capturou aquando a passagem dele por aquele país (para mais pormenores, clicar na imagem e ler o texto, que merece ser lido). Sugestão e exortação: a partir de 10 de outubro e até 7 de novembro, de terça-feira a domingo, entre as 10.00 e as 13.00 e as 14.00 e as 18.00, arranjar tempo, subir ao morro do castelo, ir à praça do pelourinho (39º 38' 33,95'' N, 8º 35' 27,10'' W) e apreciar o trabalho do moço. Na tarde deste sábado é possível encontrar lá o artista. Quem quiser dar-lhe um abraço e agradecer-lhe o trabalho pode aproveitar a oportunidade.

2009-09-14

foto&legenda # hors-série ()

neste poema falta um gato. nada posso
fazer. chamei-o mas ele afastou-se
e enroscou-se, no lugar onde costuma
dormir, à espera de uma mão que o afague
onde ele está. não posso valer-lhe.
as mãos que tenho não alcançam as mortes
pequenas, estão a oficiar este poema,
uma sobre a folha, a outra a conduzir
a esferográfica, a escrever o luto
que não declaro ou pretendo, porque é fingido.

ainda vejo a luz contraída, o nevoeiro
parisiense, as pernas de uma mulher.
fotografia © Willy Ronis
legenda © serôdio d’o.

2009-09-13

foto&legenda # hors-série (das continuações, xxvi)

Toca-me o êxtase de não ser, a exaustão. É excessivo, eu sei, sinto, mas nada quero ou posso fazer a contrário. Sou sem desejos, o deslumbramento de quem não termina e não tem força para continuar a ser o mesmo defeito. Não consigo esquecer-te. O olvido perfeito não me acontece. Quero atender a culpa que consigo, sem a comodidade da remissão pela penitência. Quero que me suceda a alma partida. A continuação é uma sucessão de golpes pequenos. Os ângulos intumescentes ficam para trás. Esqueço a superfície, as arestas. Recordo os combates, o cerco das horas, os falanstérios da normalidade, a rotina. Há momentos em que, assim, o terror vem beijar-me e eu retribuo, com os lábios, a língua, a saliva, a boca toda. Sinto a memória a saque, a esperança a instruir-se como saudade. E eu queria apenas continuar.
fotografia © Rikki Kasso
legenda © Eliz B.

2009-09-11

foto&legenda # 444 (manhattan transfer)

Corpo a corpo, de ilha a ilha, o mundo de passagem, a américa inteira, land of the free, home of the brave, sangue a sangue, culpa a culpa, a minha, a tua.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2009-09-06

foto&legenda # 443 (gore de Gorey)

Só é uma palavra que lembra poemas de dolência moderna e filmes de terror. Só e sós, no plural da rendenção. É por isso que, para se sobreviver à sobreimaginação, é necessário não ver teelvisão em demasia. Operacionalizadas pela tecnologia, as improbabilidades acontecem cada vez mais conforme a confiança, facto que, pela rotina dos acontimentos e das hipóteses, tende a comprimir o imaginário. A esperança diminui, a certeza aumenta. Quando não sucede assim, há sempre alguém que chama um técnico para reparar o que está avariado, que aposta nos totos da santa casa da misericórida ou que investe em orações. Mas é ainda a realidade que nos obriga a imaginar a lâmina necessária para se chegar ao sangue, para se conquistar a refeição. Pois há criação que, sob a vontade nossa e a força que exercemos, dá o corpo por nós, sem precisar de passar pelo ritual da transubstanciação. Basta a morte e o amanho da carne. A fome faz o resto. Não há carne sem dor.
fotografia © Tiago Gonçalves
legenda © Sérgio Faria