2009-07-14

foto&legenda-adhoc


Ena pá! Isto do Foto&Legenda é só às vezes mas está que sim senhor. Bons materiais!
O quê?, querem o meu endereço? É mesmo em frente do estúdio do gajo...
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"Toma que já almoçaste"!



foto de Pedro Gonçalves
legenda de Sérgio Ribeiro

2009-07-05

foto&legenda # hors-série (das continuações, xxii)

Sou vulnerável às coisas e ao nome das coisas. Por isso inscrevo-me no corpo e, como repetição, marco-o com sinais que desejo mostrar. Uso-me, sem discrição. Cá dentro, sem os imponderáveis das remessas tardias e da correspondência transviada, creio que a sociedade não muda por exortação. Evito a narrativa dos exemplos e das encomendas, não sou capaz de empolgar-me com isso. Permaneço quem sou, sozinha e habitada. Porque o calor das tardes voltou, tento esconder-me no chão e padecer aí, como os animais. Esfrego-me no soalho e demoro-me em contacto com a pele, a refrescar, a assumir a culpa, sem necessitar de esboçar sentimentos que não tenho. Canso-me da morte, não consigo gostar de cemitérios. A mágoa não me aflige, articulo-a em devesas, às vezes em palavras, nunca em abismo com fundo demasiado profundo. Prefiro o mal à vista, a dor domiciliada em vez de perdida ou sem paradeiro. Prefiro a superfície, a ferida ou a fractura exposta, o que não está oculto nas coisas ou no nome das coisas. Com frequência engano-me nas sequências. Há muito tempo que deixei de memorizar números de telefone. Já esqueci o teu. Agora, se quisesse falar contigo, teria que consultar a agenda. O calor não me permite tal vontade, é terapêutico. Admito a espera, o que no caso é um modo de continuação. Longe de ti sinto-me justa. E sem desejo ou necessidade de regressar. A hemorragia interna foi estancada. O período de convalescença terminou. Mudei de vícios.
fotografia © Noah Kalina
legenda © Eliz B.

2009-06-30

foto&legenda # 440 (círculo de círculos)

São sempre dois mundos, um maior do que o outro, um prévio e o outro posterior, este nascido daquele. Esta ordem repete-se nos mundos novos. Um é mais antigo e o outro é saído daquele. Durante alguma demora estoutro é mais pequeno e cresce. Os paralelos e os meridianos desta equação importam, porém importam pouco. A escala é a mesma, circular, o espaço e o tempo dobrados nas voltas. Sucede que os olhos rodam menos mas vêem mais, fazem o mesmo mundo, o mundo dos mundos, diferente e continuado. Cá é como lá, um mundo inteiro, onde tentamos ver o que acontece longe, para confirmar o que o nosso espelho reflecte. É estranho que seja o mesmo? Talvez. Mas a estranheza é nossa. Porque vezes poucas vamos a lugares distantes ver como somos repetidos. Se fôssemos, perceberíamos que estamos lá também.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2009-06-21

foto&legenda # hors-série (das continuações, xxi)

As vozes endoidecem-me. Tenho consciência de que me repito. Os sonâmbulos têm mãos também. Esta associação, vozes e mãos de sonâmbulos, é livre. Talvez seja uma perseguição. Admito que sim, a conjectura é plausível. _____ As coisas dividem-me. Prendo-me a elas para as disputar e separar-me mais de mim. A inveja é apenas mais um ângulo da minha presença. __________ Continuar é uma maneira de cair. Agora vivo em queda livre e magoada, sem outra vez. Tenho os lábios esquecidos no medo, um beijo pronunciado neles como rumor ou murmúrio. Nenhuma palavra, nenhum gesto. Os amantes amam devagar, com culpa, são assim. _____ Às vezes desejo esconder o corpo - escondê-lo, mais do que recolhê-lo -, fazê-lo passe-partout da ausência que tento. _______________ Deixei de fazer o casting cardíaco do costume. Agora obedeço ao impulso, entrego-me para partir. Do abandono ao resgate, o movimento da identidade pelo qual sou é o afastamento. A ausência faz parte do meu processo de reflexão e inflação. Tenho as mãos moídas de tanto agarrar-me. A tua forma desvaneceu-se delas, encheram-se de liberdade, incêndio e horto também. O modo como as integro no meu corpo, sem o louvor da falta, é a consequência mais evidente disso. Sofro a sensação de pertencer às paredes, como se o que é permanência em mim fosse a minha identidade e não um desvio. É esta intimidade com a matéria que me funde na necessidade. _____ Sigo o perfil irregular dos frutos, acompanho-me. A poesia não é saída ou entrada, é um caminho. Eu prolongo-me por trajectos diferentes, em manobras de perda e distância. Apesar de ser verdade, digo isto como se fosse verdade. Afasto-me, dobro-me no exílio. Puxo o corpo mais para mim, para fechar as vozes. Mas continuo apenas. Sou a morada das vozes. Continuo.
fotografia © Laurence Ellis
legenda © Eliz B.

2009-06-11

foto&legenda # 439 (raça)

O que é que eu posso fazer?, tu és de portugal e tu és do benfica. São clubes grandes, sei, sim, senhora e sim, senhor, mas são poucos os dias da semana para que possamos ser felizes. Estão a perceber? O Jesualdo, por exemplo, não percebe.
fotografia © Paulo Vaz Henriques
legenda © Sérgio Faria

2009-06-07

foto&legenda # hors-série (das continuações, xx)

Tenho que concentrar-me, arrumar a cabeça. O vício da morte persegue-me novamente. Estou para a indolência dos gatos, as manhãs e as tardes, capaz de demorar e esperar o corpo agora, de modo a que seja um momento eterno, que há-de acabar, mas que se sente infinito, para além do tempo estrito, as horas, as dobras, a sequência longa pela qual me faço presente e entrego a mim. _______________ Pensava que estava preparada para tudo, não estava. Atrelada a um universo de silêncios que crescia à medida que eu perdia a recuperação e a repetia em vão, tornei-me principiante. I’m an absolute beginner.* O que já não tenho é a inocência do princípio. Afastei-me dos sinais. Deixei de mandar postais. _____ A ressaca é quase perfeita, entranha a tristeza no meu corpo, domina as minhas mãos. Como represália, faz-me cair inteira, embora não necessariamente íntegra. É demasiado vago ou nada o que amortece a minha queda. Comungo o chão. _______________ Tudo está bem quando alguém sente que está com o tempo que lhe pertence. Comigo é diferente. Excedo a oportunidade, a vantagem marginal de quem termina. Tenho o coração calafetado, a sístoles certas e equívocas. Segredo nenhum tenho para revelar. Pretendo apenas continuar. A solidão, talvez o que é mais preciso em mim, convoca-me para a continuação. Não cedo a acasos. É o que quero.
fotografia © Rikki Kasso
legenda © Eliz B.
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* verso da canção “Absolute beginners” (in Absolute Beginners, Virgin Records, 1986), de David Bowie.

2009-05-24

foto&legenda # hors-série (das continuações, xix)

Sou o corpo imprimido no lugar da perda dele. Já não falo da hipótese da abundância, dos tempos que confluem na oportunidade. Esqueci, quero esquecer, embora não esquecer absolutamente. Na verdade não quero esquecer, quero apenas não sentir-me obrigada à presença. Da liberdade? Solto-me, não nasci solta. __________ A contracção do nome. O silêncio desenhado subitamente. _____ Sinto o corpo a convocar-me para a dissidência, para a sobra do combate. Já não se podem fazer substituições, foram esgotadas durante o tempo regulamentar da luta. A luta continua. Agora é o período dos descontos, a compensação. A luta continua. Habituo-me ao chão. Sou moça de bataclan e sozinha, não sou rapariga de bondage sindical, de palavras de ordem e marchas pelo serviço e pelas causas do serviço. As combinações fazem-me mal. _______ Atiro-me para o chão, para o contacto e para o contrato, para a identidade. Perdi a identificação, não o trabalho. No corpo desanimado, no que cai e em que vou, sou dona de casa, sou dona de mim, senhora das vozes pronunciadas de nada, vozes que ouço. O chão é a condição do meu regresso, talvez até porque regresso. Agora o chão é a minha habitação. O que quero? Quero apenas continuar, ser sedição. A solidão não me basta.
fotografia © Laurence Tarquin von Thomas
legenda © Eliz B.