2013-05-20

foto&legenda # 512 (ao vigésimo sétimo) (versão a mesma espécie)


If I die this instant 
Taken from the distance 
They will probably list it down 
Among other things round town *

Ver não faz mal. Não é tanto a beleza do desalento do derrotado no momento da derrota, o sublime criado pela prostração, aquele instante, em que, como se tivesse havido intervenção de uma autoridade cósmica, as coisas se consertam na ordem delas, ultrapassando tanto a contingência quanto a improbabilidade que alimentaram desejos, esperanças, sonhos, jactâncias em vão. Há um momento em que a virtude da liberdade cessa, não definitivamente mas na circunstância, em que se atinge o limite no qual as coisas são os que as coisas são, simples, não o que as coisas poderiam ter sido, complicadas. É o momento derradeiro, o da falência e da conformação com a falência. Nada disto merece celebração ou fé, merece apenas que não seja esquecido. A alegria está no outro lado. Mais poderiam estar aí. Os que estão, estão por opção, são suficientes, suficientes também para evitar o esquecimento. Não ser como os outros é o que ainda faz a diferença.
fotografia © ASF / A Bola
legenda © Sérgio Faria
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* versos da canção "Humiliation" (in Trouble Will Find Me, 4AD, 2013), da banda The National.

foto&legenda # 512 (ao vigésimo sétimo) (versão cão)


a André Machado

Ides sofrer como cães, o aviso. Não estava escrito pelo destino que iria ser assim, porém impôs-se que tivesse sido assim. O aviso, com a ressonância literária que tem - ressonância kafkiana, wie ein Hund, não expressão de boçalidade tribal como algumas almas de casca grossa e melindre mui delicado pretendem -, foi exigência do protocolo da magnanimidade. Há quem não ande nisto para enganar-se ou enganar.
fotografia © ASF / A Bola
legenda © Sérgio Faria

2013-04-30

foto&legenda # 511 (campeãs, campeão)

Vencer não é muito diferente de empatar ou perder, é um resultado. Serem campeãs, fazerem do Clube Atlético Ouriense o campeão que também vos fez, é serem defensoras de alguém, de algo, alguém ou algo que protegem pela vitória. Em última instância, protegem um nome, o que levam, o vosso nome nosso que é o nosso nome vosso, o estandarte. Palavras para quê?, se bastava ter dito comunidade, não é? Porque são campeãs, agora outra vez, porque venceram, embora antes já fossem, porque vencer não é simplesmente esperar a vitória.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2013-04-25

foto&legenda # 508 (o 25)

Pouco?, muito?, nada?, quando desistimos ainda sentimos que temos algo a perder?, quando nos sentamos no chão ainda sentimos a diferença?, quando olhamos ainda percebemos que ocupamos um lugar que não nos estava destinado?, quando. Ainda custa aprender que Salazar não morreu quando morreu.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2013-04-24

foto&legenda # 510 (la philosophie du non)

A palavra não não tem o respeito que merece.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2013-04-02

foto&legenda # 506 (mind the gap)

Embora possa não bastar dar passos, para se chegar a algum lado é preciso andar. Não é uma ordem, é a ordem dos lugares e das coisas entre eles. Muitas vezes a ordem funciona por arremesso. Lança-se algo ou alguém e o que ou quem foi lançado vai ocupar o lugar, um lugar, que, quando ocupado, ganha o título de respectivo. Há quem veja neste processo a mão de deus a agir, a consumação do destino. Há quem seja modesto e veja apenas a improbabilidade a acontecer. Sobre isto, as palavras de um dos filósofos contemporâneos maiores, Cruijff, são exactas e definitivas, toeval is logisch. Estamos lá.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2013-03-05

foto&legenda # 505 (dieta para o caminho)

Diz o meu senhor que o incomoda a tristeza dos outros. Que, se não temos afluência ou aforro que nos permita comer bifes todos os dias, temos que aguentar. Que temos que e que temos de, necessidade e obrigação, peso das coisas e da alma, aguentar como qualquer indigente aguenta. O meu senhor não come bifes todos os dias, come quando e quantos lhe apetece. Se quisesse comê-los todos os dias e mais do que um por refeição, o meu senhor aguentaria a ração. Tudo isto tem uma razão certa, classificada, mas, divago, não sei se tem a razão, entendida como integridade. Talvez falte travejamento à minha ideia. Não sei se não, se sim. Vivo neste desamparo e aguento. Julgo que não ter certezas não é mau e pode até ser mais condizente com os erros e as tentativas de correcção que posso por conta própria. Vivo nesta condição trágica, opção que acrescento à hipótese, entre as alegrias e as tristezas que pago. Olho para os preços e não sou capaz de deixar de admitir que às vezes o barato custa muito a alguém, custo em proveito de quem tanto lucra pelo meio pelo que sai e para que saia caro a quem, que produz, que vende, que compra, tem que e tem de aguentar para que haja quem, classe gourmet, esteja e pretenda continuar isento de aguentar o mesmo, a perda, a fome, a ressaca disso, a melancolia, o desespero, a vontade de cantar estou aqui, filhos da puta, estou aqui, fingindo que não se está onde se está justamente por se estar aí.
fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria