2016-09-06

foto&legenda # 530 (a culpa depois de prometeu)


Ao entregar-lhe o fogo, Prometeu predicou a humanidade. Tornou-lhe possível olhar quando e onde fosse escuro, tornou-lhe possível as fogueiras, os fogões, os faróis, as máquinas a vapor. Concedeu-lhe também o inferno, não o da hipótese - que se imagina -, o da coisa - que é apesar da imaginação. O rasto de um poema, do not go gentle into that good night, avisa com suficiência. Mas além da morte há as noites que ardem. Quando há estamos lá. Contra a espera. Já não esperamos o sol. A culpa agora é nossa.

fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2016-09-01

foto&legenda # 531 (carnivália)


Desde o princípio, o peito prevalece sobre o respeito. Toca aqui. Compra aqui. Paga aqui. Fosse só na fé. O que morde pode voltar a morder. Inspira. Expira. Acredita. Respira outra vez. Toca mesmo aqui. Como se fosse a primeira promessa, a tua, com dentes, que nos acontece e repete para sermos carne viva.

fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria

2015-06-02

foto&legenda # hors-série (soberanias)


Quase tudo. A demora, le temps, ce grand sculpteur, como escreveu Yourcenar, e a erosão através dela, alcançada e talhada na pedra. O homem na circunstância, a chegar ao fim da sombra, proposto a ultrapassá-la, a ir além do desenho onde ela termina. E o cão adiante, condutor, mais do que arquivo, indiferente à sentença de Keynes, in the long run we are all dead, como se admitisse sobrar-lhe. Quase tudo. Nada mais a declarar.
fotografia © Rurik Dmitrienko
legenda © Sérgio Faria

2014-05-29

foto&legenda # 524 (sobre a cegueira e outras incapacidades)


Olhar. Não ver. Não ver em braços apenas braços. Não ver em mãos apenas mãos. Não ver em apertos apenas apertos. Ver. Ver a unidade que ultrapassa e habita através do contacto. Ver o trabalho que está apagado para que no momento, aquele, inteiro e limpo, campeão, olé, campeão, olé, se veja sobretudo a festa. E quanto isso custou para que se veja melhor o que foi ganho. Ver ainda que há obras autenticamente sem dono e alegria nisso, sem ser preciso fingir inocência. Abrir os olhos. Abrir os olhos outra vez. Há sempre quem não queira ou não consiga ver. Há quem demore a abrir os olhos. Não há que fazer demorar a festa por causa disso. É próprio das festas, inclusive das que se repetem, serem feitas por quem está e onde se está, não por fantasmas que não vêem, não vêm e não são capazes de atravessar as portas que não abrem.
fotografia © Nuno Abreu / Notícias de Ourém
legenda © Sérgio Faria

2014-05-14

foto&legenda # hors-série (to a friend whose work has come to)


Cada qual é alguém para que outrem seja quem é antes de poder ser ninguém. Deus nunca esteve no meio de nós ou no facebook. Se há lá gente é porque há lá antes de haver gente. Aqui é aqui, pá, do mesmo modo que a vida é feita também de tantos nadas, coisas sem franquia. À partida, qualquer cavalo pode ganhar. Se tu quieto, se tu calado, outro jockey, (uma questão de probabilidade), mais ainda. Vêm amigos, amigos da onça, amigas, amigas a que não se olha o dente. Podem ser vampiras, há quem goste assim. E vens tu, com um brilhozinho nos olhos, dizer o mal às vezes faz bem, fazendo lembrar de orelha a orelha, tu cá, tu lá, o Casimiro Baltazar da Conceição, que, bem avisado, avisava para se ter cuidado com as imitações.* Tento ter. Mais uma corrida, mais uma viagem. Tento ter, cuidado com isso, os ursos e os adjectivos. A fé engana, a culpa salva.

fotografia © Rui Miguel Pedrosa
legenda © Sérgio Faria
__________
* audiCuidado com as imitações” (in Campolide, Orfeu, 1979), de Sérgio Godinho.

2013-11-27

foto&legenda # 519 (a caravana não passará)

Quem sabe o que é o amor sabe que o amor não existe a não ser nas drogas duras e nos versos de Morrissey, and if a double-decker bus
crashes into us
to die by your side
such a heavenly way to die
and if a ten-ton truck
kills the both of us
to die by your side
well, the pleasure and the privilege is mine
.* Este é o multiverso do nosso encontro, o chão e o sangue comuns. Nele uso o meu melhor coração, o de sexta ou sábado à noite. Visto as revelações que posso, tesouro os xaropes que a frequência modulada promove. Sinto a febre, algo impede o off. Como o outro numa canção diferente, sou assaltado pelo frémito de enforcar o dj. Segurem-me. Estou inocente, não sou, lavo as mãos. O que, neste momento, já não é suficiente.
__________
* versos da canção “There is a light that never goes out”, da banda The Smiths, incluída no álbum The Queen Is Dead (Rough Trade, 1986).

fotografia © Nuno Abreu
legenda © Sérgio Faria